Vigor Claro 30 de agosto de 2026

Libido baixa no homem: causas e o que ajuda

Libido é o desejo sexual — a vontade. Disfunção erétil é outra coisa: as EAU Guidelines de 2025 definem-na como «a incapacidade persistente de obter e manter uma ereção suficiente para permitir uma atividade sexual satisfatória», e nessa definição não entra a palavra desejo. São dois problemas distintos, com causas distintas e soluções distintas, e o primeiro passo da avaliação recomendada pela EAU a qualquer homem com queixas sexuais é precisamente identificar problemas sexuais que não sejam a ereção.

Atualizado 30 de agosto de 2026

Quase toda a publicidade do sector trata os dois como um só. Não são: um homem pode ter desejo intacto e não conseguir manter a ereção, ou ter ereções normais e nenhuma vontade. Comprar a solução do problema errado é a forma mais comum de gastar dinheiro sem resultado nenhum.

O que é a libido?

Libido é o desejo sexual: a vontade de procurar ou aceitar atividade sexual. É uma descrição de estado, não um diagnóstico — «tenho a libido em baixo» diz o mesmo que «não me apetece», com uma palavra de origem médica.

Por isso a queixa de libido baixa não se resolve com um número. Resolve-se percebendo desde quando dura, se acontece em todas as situações ou só em algumas, e o que mudou à volta na mesma altura.

Libido baixa e disfunção erétil são a mesma coisa?

Não são, e a diferença é o que decide o caminho a seguir. A definição europeia de disfunção erétil descreve uma falha mecânica persistente — obter e manter — e inclui de propósito a palavra persistente: episódios ocasionais isolados não constituem disfunção erétil clínica.

A falta de desejo é anterior a isso. É o motor, não a canalização.

Pergunta que distingue Aponta para
Tem vontade, mas a ereção falha ou não se mantém? Problema de ereção, com causas frequentemente vasculares
A ereção funciona, mas não lhe apetece? Problema de desejo
Não tem vontade nem ereção há meses? Avaliação completa, incluindo hipótese hormonal
O problema aparece só com a parceira ou parceiro e não sozinho? Componente psicogénica ou relacional

Estas perguntas não são invenção nossa: correspondem aos eixos que a avaliação inicial da EAU 2025 percorre — identificar outros problemas sexuais que não a ereção, procurar causas comuns e reversíveis, procurar fatores de risco reversíveis e avaliar o estado psicossocial.

Confundir os dois problemas é raro ou comum?

É comum, e está medido em Portugal. O estudo de Morgado e colegas, publicado em Sexual Medicine em 2019 sobre cuidados de saúde primários portugueses, avaliou 200 doentes referenciados por disfunção erétil, e a avaliação confirmou o diagnóstico em 115 deles. Nos outros, 22,3% traziam um diagnóstico principal diferente; o engano mais frequente foi a ejaculação precoce, com 10,6%.

Se um em cada cinco encaminhamentos feitos por profissionais aponta ao alvo errado, a probabilidade de acertar sozinho, a partir de um anúncio, é ainda mais baixa.

Quais são as causas de libido baixa?

As causas seguem as mesmas famílias que a EAU 2025 usa para classificar a disfunção sexual masculina: psicogénica, hormonal, induzida por fármacos ou cirurgia, vasculogénica e neurogénica. Para o desejo, as duas primeiras são as que mais aparecem na avaliação.

Componente psicológica e relacional. O estado psicossocial é um dos quatro eixos obrigatórios da avaliação inicial na EAU 2025 — não é um extra que se acrescenta se sobrar tempo. E a resposta terapêutica correspondente tem recomendação forte: terapia cognitivo-comportamental, incluindo o parceiro ou parceira quando indicado, combinada com o tratamento médico.

Componente hormonal. O hipogonadismo é uma das famílias de causas reconhecidas. Quando a falta de desejo aparece junto com fadiga marcada, perda de massa muscular e alterações de humor, as fontes clínicas apontam para investigar causa hormonal — o que se faz com uma análise de testosterona total em amostra matinal, e está explicado em como se mede a testosterona.

Medicação. A disfunção induzida por fármacos é uma categoria própria no guideline europeu. Que fármacos e com que frequência é uma pergunta para o médico ou o farmacêutico que acompanha a sua medicação — não avançamos aqui listas de princípios ativos porque não temos fonte verificada para as sustentar.

Estilo de vida. Peso, exercício, tabaco e álcool entram no guideline como fatores de risco a modificar, com recomendação forte, tratados em conjunto e não separados por peso individual.

Doenças crónicas. A diabetes surge associada à origem vasculogénica na classificação europeia, ao lado da doença cardiovascular — razão pela qual uma queixa sexual nova em quem tem diabetes merece consulta e não um frasco.

Isto é normal na minha idade?

A pergunta é a mais repetida do nicho, e a resposta honesta é: comum não quer dizer inevitável, e comum não dispensa avaliação.

Sobre desejo especificamente, não há número português que possamos citar. Existe um estudo de 2005 da Sociedade Portuguesa de Andrologia, apoiado por um fabricante de medicamento para a ereção, cujos resultados circularam na imprensa — mas não localizámos a publicação académica original nem conseguimos aceder à notícia que lhe deu origem. Um número que não se consegue abrir e confirmar não entra nesta página, por mais conveniente que fosse tê-lo.

Sobre ereção há dado bem melhor. O Portuguese Erectile Dysfunction Study (Teles e colegas, The Journal of Sexual Medicine, 2008) inquiriu 3.548 homens dos 40 aos 69 anos em 50 centros de saúde: 29% dos 40 aos 49 anos, 50% dos 50 aos 59 e 74% dos 60 aos 69, com prevalência total ajustada de 48,1%.

A maca peruana aumenta a libido?

Este é o único ingrediente do sector cuja evidência foi mesmo recolhida sobre desejo sexual — e ainda assim é evidência limitada. A revisão sistemática de Shin e colegas (BMC Complementary and Alternative Medicine, agosto de 2010) procurou em 17 bases de dados e encontrou apenas 4 ensaios aleatorizados que cumprissem os critérios.

Dentro desses quatro, os desfechos não são equivalentes:

  • dois estudos em populações saudáveis — mulheres na menopausa e homens adultos saudáveis — mostraram efeitos positivos sobre o desejo sexual;
  • um estudo em ciclistas saudáveis não encontrou qualquer efeito;
  • um estudo avaliou doentes com disfunção erétil ligeira pelo IIEF-5 e reportou efeitos significativos nesse desfecho.

A qualidade metodológica limita a leitura: nenhum dos ensaios descreveu o método de geração da sequência de aleatorização, nenhum usou ocultação da alocação e as amostras variaram entre 8 e 57 participantes. Os autores escrevem que o número de ensaios, o tamanho das amostras e a qualidade média foram demasiado limitados para conclusões firmes. As doses usadas foram de 1500 a 3500 mg por dia, durante 2 a 12 semanas.

Há ainda um detalhe que raramente aparece nos textos de venda, e que só se vê lendo o ensaio original. No estudo duplamente cego de Zenico e colegas (Andrologia, 2009), com 50 homens com disfunção erétil ligeira e 2400 mg de extrato por dia durante 12 semanas, os dois grupos melhoraram a pontuação IIEF-5 de forma estatisticamente significativa — o do placebo incluído. O grupo da maca subiu mais: 1,6 pontos contra 0,5 do placebo, numa escala de 25. Os próprios autores descrevem o resultado como «pequeno mas significativo».

Um ponto de diferença média num único ensaio de 50 homens é exatamente isso: um sinal, não uma promessa. E mostra quanto do efeito sentido por quem toma suplementos para o desejo pertence ao facto de estar a fazer alguma coisa.

Regulatoriamente, a maca não tem alegação de saúde aprovada na União Europeia: está no conjunto de plantas com alegações «on hold», suspensas e nunca avaliadas de forma conclusiva. O detalhe por ensaio está em a maca, ensaio a ensaio; a comparação com o outro ingrediente vendido para o mesmo fim está em o Tribulus e a revisão de 2025, que conclui nível baixo de evidência na ereção e nenhuma evidência robusta de aumento de testosterona.

O que ajuda, segundo as fontes clínicas?

O ponto que a tabela torna visível: quase tudo o que tem recomendação forte foi estudado com a ereção como desfecho, não com o desejo. Para o desejo, o que resta com força forte é a abordagem psicológica e a mudança de hábitos.

Intervenção Desfecho estudado Força na EAU 2025
Alterações de estilo de vida e fatores de risco Disfunção erétil Forte — antes de ou ao mesmo tempo que o tratamento
Terapia cognitivo-comportamental, com parceiro quando indicado Resultado global do tratamento Forte
Inibidores da PDE5 (sildenafil, tadalafil) Ereção Forte, primeira linha
Dispositivo de vácuo Ereção Fraca
Suplementos com L-arginina ou ginseng Ereção ligeira Fraca, para quem recusa fármacos
Treino do pavimento pélvico Ereção Fora do algoritmo farmacológico, com revisão sistemática própria

Sobre o pavimento pélvico, os números vêm da revisão de Gbiri e Akumabor (International Journal of Sexual Health, 2023), que rastreou 239 estudos e incluiu 13: no ensaio de Dorey e colegas (2004), com 55 homens e mediana de idade de 59,2 anos, 40% recuperaram função erétil normal aos 12 meses; Prota e colegas (2012) registaram 47,1% de doentes potentes no grupo tratado contra 12,5% no controlo. Os programas foram de 6 a 12 semanas.

E a parceira ou o parceiro, o que pode fazer?

Pode fazer parte do tratamento, literalmente. A recomendação forte da EAU 2025 sobre terapia cognitivo-comportamental prevê a inclusão do parceiro ou parceira quando indicado, combinada com o tratamento médico, para maximizar resultados.

Não é um detalhe simpático. A procura confirma-o: «disfunção erétil como a parceira pode ajudar» é uma pesquisa real do mercado português, o que mostra que o tema não é vivido apenas pelo homem sozinho.

Quando a falta de vontade não é só falta de vontade
  • dificuldades de ereção que persistem pedem consulta mesmo quando não vêm acompanhadas de mais nada: a revisão de Raheem e colegas (2017) regista que a disfunção erétil ocorre, em média, 3 a 5 anos antes do evento cardiovascular, e a EAU 2025 classifica-a como possível manifestação precoce de doença coronária e vascular periférica;
  • ereção que dura mais de 4 horas sem estimulação e não regride: priapismo, urgência médica;
  • dor no peito, ou história de doença cardíaca grave;
  • nitratos para a angina: associá-los ao sildenafil ou ao tadalafil é contraindicado, pelo risco de queda perigosa da pressão arterial;
  • falta de vontade que chega junto com fadiga marcada, perda de massa muscular e alterações de humor — aí a hipótese hormonal investiga-se, não se adivinha;
  • queda de desejo de início súbito num homem jovem e sem fatores de risco: investigar, não suplementar.

Uma nota sobre o que se compra online enquanto se espera pela consulta. O Infarmed conta a disfunção erétil entre as áreas terapêuticas mais atingidas pela contrafação de medicamentos, e o «Japan Tengsu», vendido em Portugal como suplemento natural para a ereção, acabou classificado como medicamento ilegal. Quem compra um frasco por vergonha de falar do assunto pode estar a levar para casa, sem saber, o fármaco que não queria tomar. O panorama completo está em disfunção erétil, do princípio.

O alcance deste texto

O que ele dá: a separação entre desejo e ereção, o que a avaliação europeia procura em cada um dos dois, os números portugueses que existem e o que os ensaios mostraram sobre a maca — com a qualidade desses ensaios à vista, e não escondida no rodapé.

O que não dá: diagnóstico, dose de suplemento ou receita para «recuperar a vontade». A falta de desejo tem causas que se identificam a falar e a examinar. Nenhuma delas se identifica a comprar.

Sobre a lista de afrodisíacos que aqui não está

Existe procura para isso — «libido booster» tem 140 pesquisas por mês e «remédio para aumentar o desejo masculino» tem 40. Uma lista de plantas seria fácil de escrever e provavelmente traria visitas.

Não a fazemos porque, das plantas vendidas para este fim, apenas a maca foi estudada com o desejo como desfecho, e mesmo aí a revisão disponível fala em evidência limitada. Alinhar dez nomes em bullets daria a essa lista uma aparência de equivalência que os estudos não sustentam: nove delas entrariam sem uma única revisão sistemática sobre desejo sexual.

Quando houver ensaios, escrevemos os nomes com os números ao lado.

Fontes

  1. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health 2025 (limited text update março 2025) — definição de disfunção erétil, eixos de avaliação inicial, etiologia, estilo de vida, terapia cognitivo-comportamental, PDE5i, dispositivo de vácuo, priapismo, nitratos, risco cardiovascular. https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/EAU-Pocket-on-Sexual-Reproductive-Health-2025.pdf
  2. Shin BC, Lee MS, Yang EJ, Lim HS, Ernst E. Maca (L. meyenii) for improving sexual function: a systematic review. BMC Complementary and Alternative Medicine, 2010. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2928177/
  3. Morgado A, Moura ML, Dinis P, Silva CM. Misdiagnosis and Undertreatment of Erectile Dysfunction in the Portuguese Primary Health Care. Sexual Medicine, 2019;7(2):177-183. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6522934/
  4. Teles AG et al. Prevalence, Severity, and Risk Factors for Erectile Dysfunction in a Representative Sample of 3,548 Portuguese Men Aged 40 to 69 Years. The Journal of Sexual Medicine, 2008;5(6):1317-1324. https://academic.oup.com/jsm/article-abstract/5/6/1317/6862540
  5. Raheem OA, Su JJ, Wilson JR, Hsieh TC. The Association of Erectile Dysfunction and Cardiovascular Disease: A Systematic Critical Review. American Journal of Men's Health, 2017;11(3):552-563. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5675247/
  6. Gbiri CAO, Akumabor JC. Effectiveness of Physiotherapy Interventions in the Management of Male Sexual Dysfunction: A Systematic Review. International Journal of Sexual Health, 2023;35(1):52-66. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10903622/
  7. Dorey G et al. Randomised controlled trial of pelvic floor muscle exercises and manometric biofeedback for erectile dysfunction. British Journal of General Practice, 2004;54(508):819-825. https://bjgp.org/content/54/508/819
  8. EFSA — alegações de saúde relativas a plantas em suspensão («on hold»). https://www.efsa.europa.eu/en/topics/health-claims-art-13
  9. Infarmed — combate à falsificação de medicamentos. https://www.infarmed.pt/documents/15786/1228470/51_Combate_Falsifica%E7%E3o_Medicamentos.pdf/4ffa6943-1191-40eb-80a5-9020c2a307c0
  10. Zenico T, Cicero AF, Valmorri L, Mercuriali M, Bercovich E. Subjective effects of Lepidium meyenii (Maca) extract on well-being and sexual performances in patients with mild erectile dysfunction: a randomised, double-blind clinical trial. Andrologia, 2009;41(2):95-99. DOI 10.1111/j.1439-0272.2008.00892.x. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19260845/
  11. Lee HW, Lee MS, Kil KJ. Maca (L. meyenii) for erectile dysfunction: a systematic review and meta-analysis. Journal of Men's Health, 2023. DOI 10.22514/jomh.2023.003. https://oss.jomh.org/files/article/20230130-20/pdf/JOMH15305.pdf

Fontes complementares citadas no texto: alerta do Infarmed sobre o produto «Japan Tengsu» (TSF, https://www.tsf.pt/sociedade/artigo/infarmed-alerta-que-o-produto-japan-tengsu-e-medicamento-ilegal/10414431).

Perguntas frequentes

O que é a libido?

Libido é o desejo sexual — a vontade de procurar ou aceitar atividade sexual. É diferente da capacidade de ereção, que é a resposta física; as duas podem falhar em separado ou ao mesmo tempo.

Falta de libido é sinal de testosterona baixa?

Pode ser uma das hipóteses, sobretudo se vier acompanhada de fadiga marcada, perda de massa muscular e alterações de humor. Confirma-se com análise de testosterona total em amostra matinal, que é o exame que a EAU 2025 inclui na avaliação de base.

A maca peruana aumenta a libido?

Dos quatro ensaios da revisão sistemática de 2010, dois em populações saudáveis mostraram efeitos positivos sobre o desejo sexual. Os próprios autores classificam a evidência como limitada, por causa do número reduzido de estudos, das amostras pequenas e da qualidade metodológica.

Falta de libido no homem tem tratamento?

Depende da causa, e é por isso que a avaliação vem primeiro. Com recomendação forte no guideline europeu estão a mudança de estilo de vida e a terapia cognitivo-comportamental, esta última com a possibilidade de incluir o parceiro ou parceira.

Os comprimidos para a ereção resolvem a falta de vontade?

Os inibidores da PDE5 são primeira linha, com recomendação forte, para a disfunção erétil — o desfecho estudado é a ereção. Não são um tratamento do desejo, e é essa a confusão que este texto tenta desfazer.

A diabetes afeta a libido?

Na classificação europeia, a diabetes aparece associada à origem vasculogénica da disfunção sexual, juntamente com a doença cardiovascular. Uma queixa sexual nova em quem tem diabetes é motivo para falar com o médico que acompanha a doença.

Quanto tempo devo esperar antes de procurar ajuda?

A definição europeia de disfunção erétil assenta na persistência: episódios ocasionais isolados não constituem doença. Quando a queixa dura e afeta a vida a dois, a avaliação é o passo seguinte — e, havendo dor no peito, ereção com mais de 4 horas ou perda súbita de visão, é imediata.

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